terça-feira, 3 de setembro de 2013

A verdade

Quem são os donos da verdade? Depende! Ao meu ver, existe uma verdade social. Todos esses valores que são impostos socialmente se transformam em verdades absolutas. Cabe a nós, que somos realmente diferentes no modo de ver o mundo, encontrarmos uma brecha para sobreviver, econômica e psicologicamente, nesse ambiente. Os valores vão mudando, mas não rápido o suficiente para que dê tempo de sentirmos confortáveis. Até porque, as minorias também divergem entre si. Logo, sempre existirão os inadaptados, prontos para terem suas verdades individuais caladas pelas verdades absolutas.

Não há o que fazer! Eu poderia dizer, aqui, que eles são todos ignorantes, burros, manipulados... isso resolveria meu problema? Em partes! A partir do momento em que eu, em momentos de completa "normalidade", em ambientes e situações sociais consideradas padrão, olho em volta e tenho vontade de correr dali para não participar dessa encenação convencionada, definitivamente, eu me declaro inadaptado a todos aqueles comportamentos e valores. Pronto! Primeiro passo: aceitação! É assim? Então, vamos em frente! No entanto, mesmo que eu os declare como "a manada doutrinada", em contrapartida, eles vão me declarar com todos aqueles rótulos que o senso comum tem como pejorativos (são muitos. É difícil escolher um - mas citarei lá embaixo). Portanto, eu não tenho como fugir desses conceitos que, a partir do momento em que são o senso comum, são a verdade absoluta! Está instituído! O que me resta, então, é aprender a lidar com todos os (des)elogios, ridicularizações e falta de educação e não deixar que isso me bloqueie mais do que a parte inevitável.

Nós somos doutrinados a tantos valores que, ao serem testados ao longo da vida, geram conflitos internos e acabamos sofrendo pra aceitar. A maioria dos aprendizados dói. É um processo! Começa com negação até chegar a um ponto onde aquilo precisa ser digerido! É muito difícil mudar conceitos cristalizados em nós mesmos.
Um dos processos de mudança mais difícil pelo qual passei foi o de aceitar que eu não posso mudar o outro. Não adianta querer brigar pra fazer com que as pessoas vejam aquilo que quero. Elas só verão a vida como eu vejo se for através de sua própria vivência ou reflexão. E mais: elas não precisam ver a vida como eu vejo!
E é nesse último ponto que a maioria dos conflitos começa. O que eu ganho vencendo um debate de ideias com uso de argumentos? Nada! Porém, se for pacífico, pode trazer crescimento! Mas o que eu ganho vencendo uma briga? Nada mesmo!
Todo mundo, no fundo, está trancado no seu mundinho, cheio de vontades reprimidas e, por tal razão, criticando o que é reprimido no outro pra se sentir mais confortável. E, muitas vezes, a tentativa de racionalizar e achar teorias que suportem nossa inadaptação só servem pra defender o nosso ego dos ataques alheios.

A maioria das pessoas não consegue perceber que a realidade que se passa na sua consciência é diferente da realidade do outro. É tudo questão de interpretação a partir de uma série de aspectos que influenciam os acontecimentos na vida de cada um. Desde a aparência física até, sei lá... o sotaque, por exemplo.
Mas, de novo, a grande maioria das pessoas não vai levar em conta esse choque de doutrinas e valores para racionalizar a favor de uma convivência pacífica. As pessoas, simplesmente, agem como se sua verdade fosse a verdade de todos e querendo impor sua verdade em todo mundo! E pra ganhar o quê?

Particularmente, eu prefiro assumir minhas fraquezas e entender que a verdade não é confortável. Mesmo que verdade seja algo individual - o que eu acredito - ainda assim, minhas verdades me incomodam e me fazem passar longos períodos insatisfeito comigo mesmo. E é essa a brecha que eu deixo para os ignorantes. Sempre usam minhas fraquezas assumidas contra mim! Existem padrões de comportamento e de aparência aos quais não estou inserido. Por mais que eu quisesse acreditar na história do patinho feio, foi com o Pato Donald que eu aprendi a contar até dez pra engolir sapo antes de cuspir marimbondo. Às vezes funciona... quando não funciona, vira texto, como este!

Diariamente eu recebo tratamento VIP de "dois pé no peito" e sou eu quem tem que pacificar pra não transformar uma simples pergunta ou um simples comentário em uma briga. É impressionante como eu não recebo o mesmo em troca! Depois de tolerar muita falta de educação, é no meu primeiro descontentamento que a relação desanda.

Todo mundo quer estar sempre certo e encontrar, na solidão e nos fracassos dos outros, o alívio para sua própria vida! O consolo para as suas frustrações está nas derrotas do outro. E enquanto entramos nesse jogo, nós sofremos e fazemos sofrer. Cada um vai usar aquilo que o senso comum valida em si para declarar o fracasso do outro. O ser humano vive muito em função da própria mente e de como ela é influenciada pelo coletivo. Beleza, dinheiro, sexo, inteligência e felicidade são os valores mais invocados para afirmar o ego!
E é aí que o mundo se torna sofrível para quem é realmente diferente. Existe um contrato social que temos que cumprir sem termos assinado. Percebeu? A palavra é: "social".

É indiscutível que o sujeito que não dá a mínima para esses valores da maioria, terá mais dificuldade para achar a distância intermediária tolerável, necessária para que ele sobreviva à hostilidade alheia. No fundo, somos todos um bando de ouriços do Schopenhauer, precisando nos esquentar e nos machucando com os espinhos do outro!

Todos são reprimidos, de alguma forma, por causa do social. Por causa disso, invoca-se nomes ofensivos para descrever o outro com a intenção de se livrar, na maioria das vezes, do mesmo estereótipo: recalcado, carente, fracassado, frustrado, mal amado, invejoso, chato, do contra... deixamos de ser nós mesmos para nos adequar aos parâmetros de perfeição que nos fazem sentir menos desconfortáveis com nossos medos, nossas aflições e inseguranças. Nos inserimos, mesmo que somente através do discurso, a valores que têm, na maioria das vezes, a única intenção de afirmação do ego diante do social. Nem percebemos, às vezes, mas mentimos ser perfeitos para não termos que ouvir as verdades sociais que doem durante dias, anos ou para sempre!

As pessoas adotam discursos através das práticas sociais. Os discursos moldam e são moldados pelo social. Com isso, mesmo sem perceber, elas se apoiam nesses discursos e, compartilhando-os,  transformam tudo em verdades. A aceitação ou não desses discursos constroem ou não relações de poder. E onde há poder, há resistência. Logo, esses discursos que se tornam verdades são mutáveis.  Sendo assim, a resistência cria contra-discursos que vão modificando as relações de poder existentes.

Isso explica, ao meu ver, a mudança de valores e como é lento esse processo. Mas é por ter um pouco dessa noção, que nós conseguimos sobreviver em meio às verdades sociais que nos são disparadas diariamente para nos inferiorizar. E é tendo essa noção que eu, particularmente, consigo lidar muitas vezes com os espinhos alheios. Eu tenho os meus bem eternizados e estou aprendendo a não usá-los contra os outros. Durante esse aprendizado, acabei usando várias vezes por impulso. Toda vez que eu sou cobrado por ter feito algo que é, pra mim, natural, tento me explicar de forma educada. Como não posso controlar o outro e suas verdades - que normalmente são mais ajustadas aos padrões sociais que as minhas - acabo por tomar a atitude errada de usar contra-discursos em direção a alguém condicionado às práticas sociais vigentes. Logo, "na interpretação geral da nação", eu sou o responsável por desencadear todo o processo destrutivo da relação enquanto, comigo mesmo, eu sei o quanto eu me esforcei para não deixar a dor de lidar com o outro se manifestar em forma de um grito por respeito pela minha individualidade.


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