sábado, 21 de março de 2015

Pequenas corrupções

Há muito tempo atrás, numa galáxia distante chamada internet, um vídeo de animação fez muito sucesso. Nele, crianças eram disciplinadas através de chineladas extremamente violentas a ponto de amputarem ou deformarem seus corpos. Esse vídeo ficou tão famoso que eu me recuso a dizer o nome por achar surpreendente o fato de que alguém possa não conhecê-lo! Em uma das pequenas histórias do vídeo, um garotinho apanha do pai corintiano toda vez que o time perde. No final, o garotinho aparece concluindo o seguinte: "Eu aprendi que quando o Corinthians perde a culpa é minha."

Com muita frequência, essa estratégia é usada contra nós. Enquanto povo, estamos sempre sendo culpados pelos erros dos políticos - que, como sabemos, mais erram do que acertam!

Peraí!

Eles acertam?

Enfim...
Eu fico indignado de ver a facilidade que as pessoas honestas têm de apontar o dedo para si. A impressão que tenho, às vezes, é que a capacidade de se "autoculpar" é proporcional à falta de culpa. Eu sempre vi, à minha volta, as pessoas sofrendo por ser honestas e pagando o preço pelo que não compraram. Talvez o melhor exemplo para ilustrar isso seja a nossa própria passividade diante dos constantes aumentos de deveres, em contraste com as poucas conquistas de direitos. Refiro-me àquilo que reclamamos desde que se estabeleceu a tal "democracia": aumenta-se o preço da energia elétrica, a gasolina, o valor da cesta básica, mas o salário não aumenta.
E aí, a gente compartilha uma tirinha de jornal satirizando a situação, damos risada e tá tudo bem.

Além disso, em ambientes formais, como no trabalho, as pessoas pouco questionam as regras e imposições abusivas que vêm dos degraus mais altos da hierarquia. O que predomina, de fato, em todos os ambientes sociais, são os abusos dos superiores em relação aos "inferiores" - não o contrário.

É por isso que me frustra quando vejo textos e imagens sendo compartilhadas na internet com a intenção de culpar o povo pela corrupção na política, alegando que somos nós, com nossas "pequenas corrupções", que fomentamos as atitudes corruptas dos políticos, "pois os políticos crescem entre nós; não vêm de outro planeta", eles argumentam.

Depende do ponto de vista! Se imaginarmos esse "outro planeta" como a metáfora normalmente usada para tal expressão, digo que eles vêm sim! Eles são parte de uma oligarquia - o verdadeiro sistema político vigente no país. Como podem pessoas assim saberem as reais necessidades do povo que deveriam representar? Não sabem, não querem saber e, ainda que soubessem, não vivem a nossa realidade - não vivem no nosso planeta!

Ninguém, dos que pensam assim como eu, nega que as pequenas corrupções são um problema. São sim. Mas compará-las aos desvios de verbas públicas é ser conivente com bandidagem. Explico:
Quem deixa de devolver um troco que o comerciante deu a mais está roubando, mas, por outro lado, eu não posso dizer se aquele 1 real roubado está realmente fazendo falta na mesa desse cidadão. Quem rouba do supermercado provavelmente não ganha mais que o supermercado. E se esse dinheiro precisa ser roubado, é porque falta valorização do trabalhador. Além disso, ele não planejou estratégica e sistematicamente tal ação.

Eu consigo pensar em milhares de explicações para as pequenas corrupções, ainda que sejam meras desculpas. O que não consigo, no entanto, é pensar em algo que explique o porquê de gente que ganha 117 mil reais por mês precisar desviar dinheiro de quem ganha 788 reais. Essa é a grande e absurda diferença! Mas vamos fazer outra conta? Eu sou bonzinho e, por isso, vou comparar o salário de um deputado com o de um trabalhador sem considerar os ganhos para gasto pessoal mensal do deputado. Nesses 117 mil que eu digitei, estão incluídos auxílio moradia, alimentação e combustível, entre outros caprichos - um deles acrescenta "apenas" 60 mil por mês.
Só o auxílio moradia tem o valor de 3 mil reais - mais do que você, pobre mortal, ganha de salário, um deputado recebe para morar! E você tem 13º salário enquanto ele tem 13º, 14º e 15º!
Se tirarmos todas essas vantagens do que ele recebe, ainda sobram "míseros" 16 mil reais! Comparemos, então, 16 mil reais com 788 reais. Não dá, né?

Eu fiquei me perguntando, depois de algo tão ÓBVIO, se é preciso continuar digitando isto aqui para saber se as pequenas corrupções podem mesmo ser comparadas às grandes; àquelas em que pessoas das mais bem pagas do país roubam dinheiro das mais mal pagas!
Desnecessário!
Nem tudo é verdade só porque é muito lindo dizer.
Agora, repitam comigo, depois de uma chinelada dessa: "quando um político rouba, a culpa é minha!".

Comentários pelo Facebook