sábado, 21 de março de 2015

Pequenas corrupções

Há muito tempo atrás, numa galáxia distante chamada internet, um vídeo de animação fez muito sucesso. Nele, crianças eram disciplinadas através de chineladas extremamente violentas a ponto de amputarem ou deformarem seus corpos. Esse vídeo ficou tão famoso que eu me recuso a dizer o nome por achar surpreendente o fato de que alguém possa não conhecê-lo! Em uma das pequenas histórias do vídeo, um garotinho apanha do pai corintiano toda vez que o time perde. No final, o garotinho aparece concluindo o seguinte: "Eu aprendi que quando o Corinthians perde a culpa é minha."Com muita frequência, essa estratégia é usada contra nós. Enquanto povo, estamos sempre sendo culpados pelos erros dos políticos - que, como sabemos, mais erram do que acertam!Peraí!Eles acertam?Enfim...Eu fico indignado de ver a facilidade que as pessoas honestas têm de apontar o dedo para si. A impressão que tenho, às vezes, é que a capacidade de se "autoculpar" é proporcional à falta de culpa. Eu sempre vi, à minha volta, as pessoas sofrendo por ser honestas e pagando o preço pelo que não compraram. Talvez o melhor exemplo para ilustrar isso seja a nossa própria passividade diante dos constantes aumentos de deveres, em contraste com as poucas conquistas de direitos. Refiro-me àquilo que reclamamos desde que se estabeleceu a tal "democracia": aumenta-se o preço da energia elétrica, a gasolina, o valor da cesta básica, mas o salário não aumenta.E aí, a gente compartilha uma tirinha de jornal satirizando a situação, damos risada e tá tudo bem.Além disso, em ambientes formais, como no trabalho, as pessoas pouco questionam as regras e imposições abusivas que vêm dos degraus mais altos da hierarquia. O que predomina, de fato, em todos os ambientes sociais, são os abusos dos superiores em relação aos "inferiores" - não o contrário.É por isso que me frustra quando vejo textos e imagens sendo compartilhadas na internet com a intenção de culpar o povo pela corrupção na política, alegando que somos nós, com nossas "pequenas corrupções", que fomentamos as atitudes corruptas dos políticos, "pois os políticos crescem entre nós; não vêm de outro planeta", eles argumentam.Depende do ponto de vista! Se imaginarmos esse "outro planeta" como a metáfora normalmente usada para tal expressão, digo que eles vêm sim! Eles são parte de uma oligarquia - o verdadeiro sistema político vigente no país. Como podem pessoas assim saberem as reais necessidades do povo que deveriam representar? Não sabem, não querem saber e, ainda que soubessem, não vivem a nossa realidade - não vivem no nosso planeta!Ninguém, dos que pensam assim como eu, nega que as pequenas corrupções são um problema. São sim. Mas compará-las aos desvios de verbas públicas é ser conivente com bandidagem. Explico:Quem deixa de devolver um troco que o comerciante deu a mais está roubando, mas, por outro lado, eu não posso dizer se aquele 1 real roubado está realmente fazendo falta na mesa desse cidadão. Quem rouba do supermercado provavelmente não ganha mais que o supermercado. E se esse dinheiro precisa ser roubado, é porque falta valorização do trabalhador. Além disso, ele não planejou estratégica e sistematicamente tal ação.Eu consigo pensar em milhares de explicações para as pequenas corrupções, ainda que sejam meras desculpas. O que não consigo, no entanto, é pensar em algo que explique o porquê de gente que ganha 117 mil reais por mês precisar desviar dinheiro de quem ganha 788 reais. Essa é a grande e absurda diferença! Mas vamos fazer outra conta? Eu sou bonzinho e, por isso, vou comparar o salário de um deputado com o de um trabalhador sem considerar os ganhos para gasto pessoal mensal do deputado. Nesses 117 mil que eu digitei, estão incluídos auxílio moradia, alimentação e combustível, entre outros caprichos - um deles acrescenta "apenas" 60 mil por mês.Só o auxílio moradia tem o valor de 3 mil reais - mais do que você, pobre mortal, ganha de salário, um deputado recebe para morar! E você tem 13º salário enquanto ele tem 13º, 14º e 15º!Se tirarmos todas essas vantagens do que ele recebe, ainda sobram "míseros" 16 mil reais! Comparemos, então, 16 mil reais com 788 reais. Não dá, né?Eu fiquei me perguntando, depois de algo tão ÓBVIO, se é preciso continuar digitando isto aqui para saber se as pequenas corrupções podem mesmo ser comparadas às grandes; àquelas em que pessoas das mais bem pagas do país roubam dinheiro das mais mal pagas!Desnecessário!Nem tudo é verdade só porque é muito lindo dizer.

Agora, repitam comigo, depois de uma chinelada dessa: "quando um político rouba, a culpa é minha!".

domingo, 3 de agosto de 2014

Beleza

Esse foi um dos maiores aprendizados que tive na minha vida recentemente. Algumas pessoas nascem esteticamente prontas para o mundo. Outras se constroem. Já outras, não têm jeito mesmo.Vivem FEIOS e morrem mais feios ainda, pois todo mundo é feio quando envelhece.

Se você é daquele tipo de feio que se apoia em frases como "a beleza não dura a vida toda", sinto muito, mas ela dura o bastante pra valer boas experiências. Nós, feios, temos que nos contentar com essa verdade. Mais uma daquelas que doem pra digerir, mas um dia nos acostumamos e passa a doer menos ou nada!


Se você é bonita e está lendo isso aqui, parabéns! Ajoelhe-se diante de um altar, agradeça ao sol, a Vênus, Afrodite, o Capeta, encha o cu do Edir Macedo de dinheiro...qualquer coisa, mas agradeça!! Você foi privilegiada pela natureza. Você pode me olhar com desprezo, me criticar por emitir opiniões, fazer facepalms (o mais lindo de todos, eu já recebi. Um espetáculo!) e me chamar de chato, curtir quando alguém me ataca nas redes sociais, acreditar em meritocracia, gostar de poesia, acreditar que "felicidade é questão de ser",  mas saiba: VOCÊ TEM RAZÃO!! Você carrega o cartão de visita para o sentido da vida! Faz feliz e faz sofrer quem você bem entender! Sempre será desejada por alguém que você deseja. A beleza tem voz, poder de decisão e está com a razão!

A vida não provará pra mim nem pra ninguém que beleza é irrelevante. No máximo, trata-se de gosto pessoal. No entanto, há belezas indiscutíveis, como também é indiscutível que ela abre portas. Há quem diga que pessoas bonitas são obrigadas a provar, a todo momento, que possuem conteúdo e não são feitas apenas de aparência. É verdade que isso existe, mas há também o outro lado, onde as imperfeições são perdoadas por causa da beleza. Pessoas feias, no entanto, passam pela mesma situação e, muitas vezes, quando provam que têm algo de valor, ouvem que isso é fruto do tempo que lhes sobra por não serem sexualmente ativas.

E é assim que funcionam nossos valores sociais. Temos discursos prontos dos dois lados e, enquanto estivermos dispostos a usá-los cegamente, defenderemos O NOSSO LADO; o nosso EGO! Porém, penso que isso não leva a nada. Isso não me faz feliz. Eu não me sentirei uma pessoa melhor por usar um discurso feito especificamente para ser usado contra pessoas bonitas. Na minha opinião, a beleza fala por si só. As pessoas bonitas de verdade experimentarão o mundo de uma forma como eu nunca experimentarei. E se elas quiserem usar isso contra mim, vai funcionar! Algumas coisas só podem ser compreendidas quando vivenciadas. A beleza, mesmo quando não é unânime, deixa a vida mais leve, otimista e feliz. Ela aproxima as pessoas daquilo que a nossa cultura tem como verdade.
Então, é isso!
Parabéns!
Muitas felicidades!

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Sobre hélices e Edgar Allan Poe

Eu abomino admiradores de fórmulas prontas. Falam bonito e não dizem nada. São admirados porque não são compreendidos. Mas soam bonito! De certa forma, é uma fuga. Escrever o que ninguém entende de forma bonita e com completa ausência de semântica é, pra mim, ter medo de dar a cara a tapa, pois é preciso coragem pra expressar o que incomoda a todos.  Faz-se, com isso, muitos inimigos e a propriedade da razão é atestada àqueles com maior número de amigos. É proibido, hoje, "desconstruir". Pra "desafinar o coro dos contentes", só sendo poeta e, de preferência, morto! Subversão é coisa pra artista crescido no Rio de Janeiro do século XX e filho de gente "influente". Atitude é comportamento de filhinho de papai que bebe Heineken e Jack Daniel's calçando Vans. Afinal, ser rock'n'roll custa caro! Mas um All-Star já serve.

Somos livres pra dizer o que pensamos, sentimos e interpretamos, mesmo opiniões pessimistas, desde que seja assinado por Clarice, Fernando Pessoa, Bukowski... o importante é fechar os olhos, suspirar e deixar fruir (com "r" mesmo). Tá entendendo o que eu quero dizer? É tudo sobre hélices e Edgar Allan Poe! As coisas são porque são. Você não precisa entender, entende? Quanto menos você entender, mais culto eu pareço, não é mesmo? Ou louco! Mas um louco consciente (ops! Autor errado!)! Ou não...afinal, ele morreu!

É tudo sobre "sofrer feliz"! Uma coisa, assim... Djavan! Leminski! Ou desconstrução canônica! Expressão que exige autorização, estruturas prontas fingindo que não.

Quem sabe...se
eu escrever
assim. Será que você
me entende?

Não? Tente ler de novo, mas dessa vez, suspirando! Quem sabe você sente... e a coisa toda faz sentido. Não é assim que funciona? Não esqueça de fechar os olhos e da entonação. Não sei como faz isso! É você quem sabe.
Não? Cara, como você é burro! Ou não! Procure saber...

Pensar por mim mesmo? Não sei fazer isso. Só se for confortante. Se doer, é mentira! Só dói sendo verdade se tiver assinatura reconhecida em cânone. Assim que aprendi. Porque, você sabe... eu não quero ser o chato que se preocupa com coisa séria quando todo mundo tá preparando uma festa. Só se a chatice tiver citação canônica! Aí pode!

E se eu colocar, aqui, uma foto de pôr do sol? Ou de pés descalços na areia da praia...será que, assim, tenho "permissão" pra ser pessimista sem estragar a festa? Porque, você sabe... eu não quero invadir o espaço do outro. Eu deveria ser budista, ter um quadro do Ganesha, ou qualquer outro tipo de símbolo zen, e um comportamento passivo diante das opressões institucionalizadas...  porque, como você me ensinou, o que eu falo não deve ser dito na sua presença. Tem que ser depois... em outro lugar... em particular com quem eu quero falar. Se for aqui, incomoda, entende? Sinto muito. É que não fui instituído! Vindo de mim, não há "karma" que justifique! É agressivo!

domingo, 6 de outubro de 2013

Os "chatos" que regulam o Facebook

Às vezes, me parece que, na falta do que escrever, a primeira coisa que vem à mente de jornalistas e blogueiros, é falar das pessoas que "incomodam" no Facebook. E toda vez que eu leio uma matéria dessas, eu me pergunto: "tá! E você? Onde se enquadra?"

Poxa! A pessoa é capaz de escrever sobre todos os comportamentos possíveis de se encontrar no Facebook, criticando-os. É impossível que ela não se enquadre em nenhum daqueles comportamentos, pois, caso contrário, tal pessoa não tem uma conta na rede social. Tudo bem, se tem uma coisa que eu gosto na internet, é a liberdade de expressão e, infelizmente, eu não posso, aqui, negar que criticar a liberdade de expressão não deixa de ser, também, uma liberdade que a pessoa tem. Mas o grande e principal aspecto da internet ainda é o fato de que ela não é regulamentada. Pelo menos, não oficialmente...

Talvez falte, a determinadas pessoas, a experiência de ter vivido num mundo sem informação. Pra quem teve essa experiência de "sentir que tinha algo de errado com o mundo, como um zumbido na sua cabeça", a internet trouxe um sentimento de alívio. As redes sociais apenas potencializaram um dos aspectos negativos da internet: não poder se livrar das pessoas que são diferentes de você - e que tais diferenças são incômodas pra você!

Antes das redes sociais, ligar o PC e se conectar à rede de computadores, significava se manter num ambiente mais cômodo. Você acessava sites de informação e, mesmo quando em contato com outras pessoas, este se dava através dos Fóruns de Discussão. Esses espaços eram (e ainda são) temáticos e, por tal razão, as divergências eram menos comuns. O que as redes sociais fizeram, foi juntar todos esses espaços num lugar só. Assim, além de você expor sobre o que gosta pra pessoas que odeiam o que você gosta, você ainda está mais próximo virtualmente de pessoas que, antes, você só estava pessoalmente. Se antes, as pessoas se encontravam on-line por um tema em comum, hoje, elas se encontram on-line porque se conhecem pessoalmente. E é aí que as relações na internet ficaram mais próximas das relações na vida real. Antes, ela era uma espécie de refúgio. 

Era o momento em que você estava distante dos valores de outros e mais próximo de si mesmo. Mais do que isso, estar próximo de si mesmo significava estar próximo de pessoas que compartilhavam das mesmas ideias - e ideias é o que somos de verdade. A internet, naquele momento, aproximava mais as pessoas do que é possível pessoalmente. Ali, usando nickname e avatar em vez de mostrar nome e rosto reais, você colocava pra fora, na maioria das vezes, o que realmente pensava - um "eu" mais verdadeiro, menos mascarado, mais sincero. Mesmo que não completamente, é quase inegável que alguém que se apresenta sem nome e rosto reais para desconhecidos, será menos temeroso a expor ideias minoritárias. Ou seja, a partir do momento em que os valores sociais nos amarram, fazendo-nos omitir o que temos de mais íntimo e particular, e percebemos que há um espaço onde podemos mostrar nossas ideias (o que tem dentro da "casca") é natural que nos sintamos mais confortáveis. Pense sinceramente sobre a seguinte pergunta:

o que é melhor? Ter, pessoalmente, um papo agradável onde você se limita a dizer o que pensa ou ter um papo à distância que seja agradável exatamente porque você é livre pra colocar pra fora tudo que tem vontade?

É claro que não estou falando, aqui, de relações de casais, namorados ou coisa do tipo, pois essas exigem o contato físico para se conhecer melhor o outro. Falo das relações comuns do dia a dia que acontecem fora do ambiente familiar; aquelas relações que você tem por obrigação, entende? E é aí que aparecia a grande vantagem da internet. Você não conversava o que não queria por pura socialização. Você se relacionava a partir de um tema em comum; já havia conhecido a pessoa pelo que vocês tinham em comum - o que já torna a conversa mais agradável e amistosa - já que é difícil conhecer pessoas que veem as diferenças como algo normal.

Voltando, então, aos inúmeros textos sobre "como não agir no Facebook", penso que essas pessoas não entenderam o "conceito" de ter um espaço seu na internet. Ali é onde você fala o que pensa e "dá a cara a tapa" para ouvir opiniões contrárias. Deveria servir, na verdade, como um treinamento para que as pessoas aprendessem a respeitar o que é diferente. Eu vejo, o tempo todo, postagens que não me agradam e, quando as vejo, não penso "que legal que essa pessoa é diferente". De jeito nenhum! Mas ali é o espaço dela postar o que quiser. Se eu não quiser ver, tenho a opção de não ver. Uma hora ou outra, uma postagem me irrita e eu acabo criticando aquele tipo de comportamento. Me lembro, por exemplo de já ter criticado as piadas repetidas - você vê uma piada de uma página e, em minutos, ou dias, a mesma piada começa a aparecer em várias páginas de humor e, até mesmo, como atualização de status dos seus amigos, sem créditos, como se eles fossem os autores. Tudo pra ganhar curtidas por ser o cara bem humorado da internet. Ainda nessa linha, também não me atrai a pessoa que não comenta nada que não seja "kkkkk" abaixo dessas ou de outras piadas. Eu não admiro esse tipo de uso do Facebook, mas direito de fazê-lo, a pessoa tem! 

Mas o que realmente me incomoda nesse tipo de matéria sobre o que deve ou não ser compartilhado, é o fato de a pessoa ser capaz de criticar todos os tipos de postagens possíveis! E eu fico tentando entender qual seria, então, o uso "correto" das redes sociais pra uma pessoa que critica todos os usos existentes!

terça-feira, 3 de setembro de 2013

A verdade

Quem são os donos da verdade? Depende! Ao meu ver, existe uma verdade social. Todos esses valores que são impostos socialmente se transformam em verdades absolutas. Cabe a nós, que somos realmente diferentes no modo de ver o mundo, encontrarmos uma brecha para sobreviver, econômica e psicologicamente, nesse ambiente. Os valores vão mudando, mas não rápido o suficiente para que dê tempo de sentirmos confortáveis. Até porque, as minorias também divergem entre si. Logo, sempre existirão os inadaptados, prontos para terem suas verdades individuais caladas pelas verdades absolutas.

Não há o que fazer! Eu poderia dizer, aqui, que eles são todos ignorantes, burros, manipulados... isso resolveria meu problema? Em partes! A partir do momento em que eu, em momentos de completa "normalidade", em ambientes e situações sociais consideradas padrão, olho em volta e tenho vontade de correr dali para não participar dessa encenação convencionada, definitivamente, eu me declaro inadaptado a todos aqueles comportamentos e valores. Pronto! Primeiro passo: aceitação! É assim? Então, vamos em frente! No entanto, mesmo que eu os declare como "a manada doutrinada", em contrapartida, eles vão me declarar com todos aqueles rótulos que o senso comum tem como pejorativos (são muitos. É difícil escolher um - mas citarei lá embaixo). Portanto, eu não tenho como fugir desses conceitos que, a partir do momento em que são o senso comum, são a verdade absoluta! Está instituído! O que me resta, então, é aprender a lidar com todos os (des)elogios, ridicularizações e falta de educação e não deixar que isso me bloqueie mais do que a parte inevitável.

Nós somos doutrinados a tantos valores que, ao serem testados ao longo da vida, geram conflitos internos e acabamos sofrendo pra aceitar. A maioria dos aprendizados dói. É um processo! Começa com negação até chegar a um ponto onde aquilo precisa ser digerido! É muito difícil mudar conceitos cristalizados em nós mesmos.
Um dos processos de mudança mais difícil pelo qual passei foi o de aceitar que eu não posso mudar o outro. Não adianta querer brigar pra fazer com que as pessoas vejam aquilo que quero. Elas só verão a vida como eu vejo se for através de sua própria vivência ou reflexão. E mais: elas não precisam ver a vida como eu vejo!
E é nesse último ponto que a maioria dos conflitos começa. O que eu ganho vencendo um debate de ideias com uso de argumentos? Nada! Porém, se for pacífico, pode trazer crescimento! Mas o que eu ganho vencendo uma briga? Nada mesmo!
Todo mundo, no fundo, está trancado no seu mundinho, cheio de vontades reprimidas e, por tal razão, criticando o que é reprimido no outro pra se sentir mais confortável. E, muitas vezes, a tentativa de racionalizar e achar teorias que suportem nossa inadaptação só servem pra defender o nosso ego dos ataques alheios.

A maioria das pessoas não consegue perceber que a realidade que se passa na sua consciência é diferente da realidade do outro. É tudo questão de interpretação a partir de uma série de aspectos que influenciam os acontecimentos na vida de cada um. Desde a aparência física até, sei lá... o sotaque, por exemplo.
Mas, de novo, a grande maioria das pessoas não vai levar em conta esse choque de doutrinas e valores para racionalizar a favor de uma convivência pacífica. As pessoas, simplesmente, agem como se sua verdade fosse a verdade de todos e querendo impor sua verdade em todo mundo! E pra ganhar o quê?

Particularmente, eu prefiro assumir minhas fraquezas e entender que a verdade não é confortável. Mesmo que verdade seja algo individual - o que eu acredito - ainda assim, minhas verdades me incomodam e me fazem passar longos períodos insatisfeito comigo mesmo. E é essa a brecha que eu deixo para os ignorantes. Sempre usam minhas fraquezas assumidas contra mim! Existem padrões de comportamento e de aparência aos quais não estou inserido. Por mais que eu quisesse acreditar na história do patinho feio, foi com o Pato Donald que eu aprendi a contar até dez pra engolir sapo antes de cuspir marimbondo. Às vezes funciona... quando não funciona, vira texto, como este!

Diariamente eu recebo tratamento VIP de "dois pé no peito" e sou eu quem tem que pacificar pra não transformar uma simples pergunta ou um simples comentário em uma briga. É impressionante como eu não recebo o mesmo em troca! Depois de tolerar muita falta de educação, é no meu primeiro descontentamento que a relação desanda.

Todo mundo quer estar sempre certo e encontrar, na solidão e nos fracassos dos outros, o alívio para sua própria vida! O consolo para as suas frustrações está nas derrotas do outro. E enquanto entramos nesse jogo, nós sofremos e fazemos sofrer. Cada um vai usar aquilo que o senso comum valida em si para declarar o fracasso do outro. O ser humano vive muito em função da própria mente e de como ela é influenciada pelo coletivo. Beleza, dinheiro, sexo, inteligência e felicidade são os valores mais invocados para afirmar o ego!
E é aí que o mundo se torna sofrível para quem é realmente diferente. Existe um contrato social que temos que cumprir sem termos assinado. Percebeu? A palavra é: "social".

É indiscutível que o sujeito que não dá a mínima para esses valores da maioria, terá mais dificuldade para achar a distância intermediária tolerável, necessária para que ele sobreviva à hostilidade alheia. No fundo, somos todos um bando de ouriços do Schopenhauer, precisando nos esquentar e nos machucando com os espinhos do outro!

Todos são reprimidos, de alguma forma, por causa do social. Por causa disso, invoca-se nomes ofensivos para descrever o outro com a intenção de se livrar, na maioria das vezes, do mesmo estereótipo: recalcado, carente, fracassado, frustrado, mal amado, invejoso, chato, do contra... deixamos de ser nós mesmos para nos adequar aos parâmetros de perfeição que nos fazem sentir menos desconfortáveis com nossos medos, nossas aflições e inseguranças. Nos inserimos, mesmo que somente através do discurso, a valores que têm, na maioria das vezes, a única intenção de afirmação do ego diante do social. Nem percebemos, às vezes, mas mentimos ser perfeitos para não termos que ouvir as verdades sociais que doem durante dias, anos ou para sempre!

As pessoas adotam discursos através das práticas sociais. Os discursos moldam e são moldados pelo social. Com isso, mesmo sem perceber, elas se apoiam nesses discursos e, compartilhando-os,  transformam tudo em verdades. A aceitação ou não desses discursos constroem ou não relações de poder. E onde há poder, há resistência. Logo, esses discursos que se tornam verdades são mutáveis.  Sendo assim, a resistência cria contra-discursos que vão modificando as relações de poder existentes.

Isso explica, ao meu ver, a mudança de valores e como é lento esse processo. Mas é por ter um pouco dessa noção, que nós conseguimos sobreviver em meio às verdades sociais que nos são disparadas diariamente para nos inferiorizar. E é tendo essa noção que eu, particularmente, consigo lidar muitas vezes com os espinhos alheios. Eu tenho os meus bem eternizados e estou aprendendo a não usá-los contra os outros. Durante esse aprendizado, acabei usando várias vezes por impulso. Toda vez que eu sou cobrado por ter feito algo que é, pra mim, natural, tento me explicar de forma educada. Como não posso controlar o outro e suas verdades - que normalmente são mais ajustadas aos padrões sociais que as minhas - acabo por tomar a atitude errada de usar contra-discursos em direção a alguém condicionado às práticas sociais vigentes. Logo, "na interpretação geral da nação", eu sou o responsável por desencadear todo o processo destrutivo da relação enquanto, comigo mesmo, eu sei o quanto eu me esforcei para não deixar a dor de lidar com o outro se manifestar em forma de um grito por respeito pela minha individualidade.


domingo, 19 de maio de 2013

Quando o "Curíntias" perde, a culpa é minha!


Acho curioso o discurso que nos aponta erros responsáveis pela nossa não-adaptação à regras sociais. Como se o fato de termos um comportamento mais natural e sincero nas relações, pudesse legitimar a reação negativa dos outros a nosso respeito.
Não existe controle sobre o que conquistamos. Conquista é um nome que damos a um esforço bem-sucedido, mesmo que o resultado favorável não tenha sido o que foi planejado a princípio. Mas é claro que, socialmente, precisamos omitir o esforço malsucedido para estar em dia com nosso ego e dizer que somos vitoriosos, mesmo depois dos desvios de curso, afinal, o mundo nos quer falsos e orgulhosos do que não somos.

Recentemente, li que os casos de depressão têm aumentado devido à procura das pessoas pelo sucesso. Essa cobrança por sempre mais e o discurso social de que não ser bem-sucedido deve-se à falta de competência e ao desmerecimento, faz com que entremos num estado de autocobrança e frustração, e nos faz sentir fracassados.

Não é raro de se ver, hoje em dia, gente que se orgulha de não dar esmolas porque "tem muitos lugares aí precisando de gente pra trabalhar". Acho uma conclusão precipitada. Pra que você seja admitido em qualquer supermercado explorador por aí, precisa passar em testes de RH daqueles bem nonsense, cheios de jogos tipo pique-esconde e perguntas que aguardam respostas chavão. E lembre-se: em testes de RH, nunca seja você mesmo!
Houve uma época, quando eu estava procurando emprego, que me chamou a atenção um detalhe exposto em quase toda oferta de trabalho que eu via: "ser comunicativo". Lembro de ter visto esse pré-requisito em áreas diversas - inclusive para vagas onde se trabalha sozinho. Os próprios testes de RH parecem servir como um filtro para garantir que os "selvagens" não sejam admitidos no "Admirável Mundo Novo" - o que sempre me dá a impressão de que os melhores lugares estão reservados para os ignorantes incapazes de ver o mundo além de sua própria "espécie".
Será possível ter dinheiro, valor e respeito sendo autêntico?

O que quero dizer com isso tudo é que "querer é poder" é um discurso muito simplista e simplório que só pode ser formulado por pessoas carentes de uma visão de mundo além do próprio umbigo. Nós não estamos sozinhos - mesmo que solitários - já que vivemos em um sistema social. Tudo que somos depende de outros. Nascemos vinculados a família, Estado, cultura e vários outros tipos de "sistemas fechados" que nos obriga a omitir naturalidades mais naturais que as sociais e que, em alguns casos, essas omissões são determinantes nas nossas motivações. Não há como, por exemplo, cobrar "orgulho da pátria" de um cidadão que vê o Estado como limitador de suas vontades. Mas o Estado está lá, queira você ou não! Querer é poder, então? Não! Muitas vezes o que queremos precisa ser conquistado à base de submissão a situações impostas socialmente e que só nos dão a sensação de bem-estar quando somos remunerados porque substituímos o prazer da liberdade, que nos foi tirada, por esses prazeres passageiros compráveis - mesmo que falemos, aqui, de pessoas compráveis.

O sentimento de desconforto e inaptidão ao teatro que é o nosso dia-a-dia nunca será compreendido por quem se sente confortável a ele. É quase uma loteria. Se você nasce com aptidão para atividades bem remuneradas, nunca vai sentir o peso de ser você mesmo, já que seu "eu mesmo" se encaixa aos padrões. Mas se sua essência te faz inapto ao que o mundo valoriza, terá que viver sempre com conflitos internos. Fazer o que eu gosto, mas ser mal remunerado? Fazer o que não gosto e ser bem remunerado? Me assumir como sou e ser menos relacionado? Lutar pra me adequar ao perfil padrão, mas me sentir desconfortável? Essas são as questões! Podemos, sim, fazer esforços para nos adaptar e conseguirmos resultados positivos com isso. Mas será mesmo que precisamos renunciar ao que, em nós, é natural? Não seria melhor que o mundo não determinasse que tipo de perfil é o ideal?

Alguém sempre vai ver o que falta em você! Por mais que obtenha sucessos, será cobrado pelo que fracassou! Vão dizer que fez escolhas erradas, como se você pudesse prever o resultado de cada escolha que faz na vida.

"Mas a culpa é sua!"... "Você poderia ter lutado mais!"... "Você é brasileiro e não desiste nunca!"...

E quanto mais motivado você se sente com esse tipo de frase, mais você se cobra e abastece a criminalidade engravatada.
Inventaram conceitos de perfeição e, aceitando ou não, você precisa aderir para sobreviver. Não dá pra viver fora da Caverna o tempo inteiro. É preciso entrar, de vez em quando, pra buscar o sustento. E aqueles que te culpam, nunca saberão o quanto é difícil passar várias horas por dia "jogando o jogo" que você não se enquadra para ter direito às poucas horas de ser você mesmo.